A dança venturosa: O maxixe como expressividade diaspórica entre a Monarquia e a República brasileira

Partindo do livro O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência de Paul Gilroy (1993/2012), esta comunicação tem como objetivo discutir o surgimento do maxixe (dança e gênero musical) como um produto da diáspora negra e seu encontro com a cultura ocidental, via Portugal, ocorrida na segunda metade do século XIX na capital do Império e futura capital da República brasileira, assim como rediscutir a noção de nacional/local (Souza-Santos, 2005) e transnacional (Martín Barbero, 2009). Desenvolvido inicialmente como dança praticada sobre a polca, o maxixe se manifestou também como gênero musical, passando a ser praticado não só como um modo de interpretar (dançar/tocar), ou seja, como um estilo; mas como a expressão da “dupla consciência” defendida por Gilroy: a “particularidade” negra, inscrita na memória, no próprio corpo e experimentada na existência cotidiana no fim do Império e inicio da República brasileira; e a busca de inserção dentro do projeto universalista europeu lutando pela emancipação civil, logo política e, consequentemente, existencial, que possibilitaria sua inclusão definitiva na construção de um projeto onde a “negritude” não precisasse ser anulada (branqueada) para poder exercer sua plenitude humana e, consequentemente, sua força histórica. Nesse sentido, as identidades diaspóricas formar-se-iam de modo complexo, híbrido, articuladas nas trocas “interculturais,” propiciadas/forçadas pelo projeto capitalista ocidental: o sistema-mundo capitalista (Wallerstein, 2007). Nessa interpretação, a polca austríaca, difundida no ocidente e seus domínios como um sucesso “internacional/transnacional,” ao ser apropriada pela cultura negra local (afro-brasileira) participou, juntamente com o lundu, da origem do maxixe. Portanto, uma identidade musical não mais entendida como um processo essencialista, seja em sentido etnocêntrico ou nacionalista. E mesmo dentro do projeto de Estado-Nação, o ocidente e as várias nacionalidades se formaram—e desde de tempos longínquos—a partir da consciência do “outro,” neste caso, a cultura negra que lhe serviu de contraponto, logo pelas trocas articuladas entre identidade e diferença possibilitando uma auto-compreensão a “partir de” e “com” o outro.