A “um palmo acima da existência”: Tropicália, divina paradoxia e Brasil no vislumbre de Caetano Veloso e Agostinho da Silva

O objetivo dessa proposta de comunicação é abordar criticamente as sutis e pouco exploradas relações entre a Tropicália (movimento cultural brasileiro dos finais dos anos 60) e os vislumbres mítico-místicos do Sebastianismo patente no pensamento poéticofilosófico português (com evidentes ecos na literatura e no cinema brasileiro), naquilo que lhes parece comum: uma original concepção acerca do Brasil e o papel que a sua cultura deveria desempenhar na consumação de um futuro por ora ainda utópico. Para a consecução desse objetivo, analisaremos o pensamento de dois importantes expoentes das referidas mundividências: o poeta, músico e compositor brasileiro Caetano Veloso, e o pensador português Agostinho da Silva. Com efeito, na obra Verdade Tropical (obra fundamental para essa comunicação), ao falar da gênese, desenvolvimento e episódios da experiência tropicalista, Caetano acusa a relevância de Agostinho na formação da geração 38 de baianos da qual fazia parte, nomeadamente no que diz respeito à fundação do Centro de Estudos Afro-Orientais na Universidade da Bahia sob o reitorado de Edgard Santos no final dos anos 50. No pensamento de Agostinho, destacaremos dois temas de centralidade decisiva para os nossos propósitos: os sincretismos e as paradoxias étnicas, religiosas, musicais, lingüísticas, etc., imprescindíveis para a compreensão da Tropicália; e a concepção do culto do Espírito Santo e do Quinto Império, como futuro desejado por parcela difusa no mundo de língua portuguesa, já prefigurado na Ilha dos Amores de Luís de Camões, na História do Futuro de Antônio Vieira e nas Índias Oníricas de Fernando Pessoa, e que expressava o anelo utópico de exceder as dimensões de tempo e espaço, o que justifica a expressão de Caetano que escolhemos para o título dessa comunicação (“um palmo acima da existência”). Para Agostinho, a experiência de suplantação das dimensões de tempo e espaço constituía a mais profunda vocação de um Portugal medieval, olvidada na Península Ibérica, mas fadada a ser cumprida no mundo de língua portuguesa (com especial destaque para o Brasil), como caminho privilegiado para se pensar e se executar a superação cultural e espiritual de uma crise planetária caracterizada pela ausência de liberdade, isto é, para se cumprir a superação da civilização utilitária e pragmática orientada exclusivamente para a produção e o consumo. Sob essa perspectiva, temos a intenção de apresentar importantes aspectos do pensamento de Agostinho da Silva, focando a sua repercussão no movimento tropicalista, especialmente na concepção de Brasil configurada por Caetano Veloso, um dos principais personagens do movimento.