A valsa entre os palcos e os salões no Diário do Rio de Janeiro (1821-1878)

De acordo com o pesquisador Jairo Severiano, a valsa, transplantada para o Brasil no início do século XIX, com a vinda da família real portuguesa em 1808, é adotada nos salões da sociedade urbana emergente. Mas é somente na segunda metade dos oitocentos que ela se populariza no Brasil, inicialmente como composição instrumental e, posteriormente, como canção. A partir do início do século XX, a valsa “com letra” se consolida como a “expressão máxima de nossa canção amorosa” (Severiano 2013, p. 202). Numa observação preliminar somos levados a concordar com o pesquisador. De fato, as partituras de valsas anunciadas no Diário do Rio de Janeiro, na primeira metade do século XIX, são em geral importadas de Paris. Entre as menções mais escarças a compositores brasileiros, figuram três anúncios do álbum com 12 valsas para piano, compostas por Candido Ignácio da Silva (1830–1838). Uma busca mais detalhada em periódicos disponíveis online desde julho de 2012 através da Hemeroteca Digital Brasileira da Fundação Biblioteca Nacional nos permite reavaliar o papel exercido pela valsa no Brasil. No Diário do Rio de Janeiro (1821-1878), o primeiro diário do país com caráter informativo, a valsa aparece em anúncios de venda de partituras e, também, na programação teatral. Esta identificação de repertório, músicos, empresários, impressores, professores é essencial para estabelecer um mapeamento propício ao exercício do que Carlos Ginzburg (1989) chamou de paradigma indiciário. A partir de detalhes pequenos e dados marginais (dedicatórias, títulos, tipos de espetáculo) procura-se entender o significado e papel da valsa no Rio de Janeiro oitocentista. Unindo esta perspectiva diacrônica a outra sincrônica (Schwarcz, 1987)—observando o que acontece ao lado dos anúncios de partituras (notícias particulares, avisos sobre escravos fugidos, polêmicas políticas, folhetins)—é possível (re)construir uma narrativa histórica um pouco mais densa, onde a valsa está relacionada não somente a usos específicos, mas inserida no contexto de uma rede de agentes e de significados (Geertz, 2008) que contribuíram para a consolidação das práticas culturais do período e marcaram a sensibilidade da época.