Música, discurso e identidade: Substratos de uma historiografia musical brasileira na filmografia de Humberto Mauro (Canto da Saudade, 1952)

Neste trabalho propomos discutir a construção de um discurso historiográfico-musical no espectro mais amplo da construção de identidades nacionais, considerando os aportes de uma história intelectual do pensamento sobre a cultura brasileira. A proposta resulta da análise do processo de elaboração de uma historiografia musical brasileira (Mello 1908; Cernicchiaro 1926; Almeida 1926, 1942; Andrade 1928, 1941; Azevedo 1950, 1952; Duprat 1966, 1989; Lange 1983; Mariz 1983; Appleby 1983; Napolitano 2002) observando as suas relações com a construção de um discurso propriamente musicológico e suas implicações nas suas estruturas de pensamento e modos de fazer história, acercando-nos ao que denominamos uma “epistemologia do nacional.” Neste sentido, a filmografia de Humberto Mauro (Volta Grande-MG, 1897-1983)—em seu conjunto mas sobretudo em o Canto da Saudade (1952), no que discorre sobre o espaço de construção de um Brasil ainda rural do pós-guerra, instigando a articulação de questões sobre identidade nacional, tendo “a sanfona” como um dos personagens centrais—oferece espaço audiovisual argumentativo e “inventivo” sobre tais questões, na construção de uma tópica estética (Couto 2001) na qual o discurso/repertório musical (e.g. Villa-Lobos, folclore nacional) oferece underpinnings estruturantes para a sua discussão/ilustração. O trabalho faz parte de projeto mais amplo de elaboração coletiva de uma “História da Música Brasileira” – ou de “História(s) das Músicas Brasileiras” – a partir tanto de um quadro teórico-metodológico atualizado nos campos da historiografia (Certeau 1975; et ali.) e musicologia (Treitler 2001; Tomlinson 2007), como crítico na análise de construtos e concepções muitas vezes herdados/naturalizados, elaborados seja com insuficiente apoio científico-acadêmico, seja a partir de quadros filosóficos anteriores a uma perspectiva pós-estruturalista, objetivando o alcance de maior pertinência aos problemas atuais. Ultima ainda discutir as fronteiras entre erudito/popular.