Narratividade Musical: A redução fenomenológica na composição, na interpretação e na escuta

Esta seção marca a fundação do primeiro Grupo de Estudos da ARLAC/IMS: “Música e Narratividade” (NARRAMUS), congregação de pesquisadores que se dedicam ao estudo da música enquanto discurso potencialente comunicativo, significativo e sugestivo. A mesa pretende abordar a concepção musical narrativa em reflexões teóricas e crítico-analíticas, objetivando as estratégias de construção da narratividade na composição, na interpretação e na escuta da música. Seis trabalhos individuais abordam os seguintes assuntos:
1) “A teoria das tópicas e as narrativas de identidade na música clássica latino-americana”
A teoria das tópicas se constituiu numa ferramenta produtiva para o estudo da narratividade musical a partir de uma perspectiva retórico-semiótica. No entanto, sua aplicação às narrativas de identidade na música ‘erudita’ latinoamericana evidencia  algumas ambiguidades e zonas cinzentas na teoria. Questões fundamentais como a própria definição de topos e sua diferenciação de outros fenômenos como os “gestos” e recursos técnicos; a simultaneidade, o diálogo e o uso irônico dos topoi, entre outros itens, ainda são matéria controversa. Nesta apresentação, Melanie Plesch revisa esses problemas teóricos a partir da perspectiva analítica da autora sobre o caso argentino.
2) “Tópicas e narrativa na música política de Silvestre Revueltas”
As últimas criações de Revueltas se caracterizaram por um marcado sentido político, vinculado à Guerra Civil espanhola. A comunicação desse sentido é buscada pelo emprego significativo de tópicas musicais tradicionais ou construídas, atuantes como sujeitos de uma narratividade programática, e por meio da criação intermidiática— música e cinema, balé, pantomima ou poesia— onde o meio visual e/ou verbal, com sua natureza figurativa, contribui para desambiguar o conteúdo musical. A correlação de textos verbais ou visuais com as mencionadas partituras permite identificar as tópicas e interpretar seu sentido político e seu desenvolvimento narrativo.
3) “Narrativas de identidade cultural na música de concerto brasileira: dois estudos de caso”
Sertania: Sinfonia do Sertão (1982) de Ernst Widmer e Nau dos Insensatos de Conrado Silva são obras completamente distintas nos aspectos técnico e estético, tendo em comum uma ideologia referencialista e um propósito intermidiático. A primeira foi concebida para a trilha sonora do desenho animado Boi Aruá (1984), longa metragem do artista plástico baiano Chico Liberato sobre um dos mitos da cultura brasileira sertaneja. A segunda foi uma das obras eletroacústicas compostas para a sonorização ambiental da 20a Bienal de Artes de São Paulo (1989). Em trabalhos independentes, Ilza Nogueira e Rodolfo Coelho de Souza analisam estratégias de narratividade e representação nos discursos sinfônico e eletrônico.
4) “Narratividade compositiva versus retórica interpretativa”
Entre 1950 e 1967, cinco compositores brasileiros (C. Guerra-Peixe, E. Katunda, C. Santoro, E. Scliar e E. Krieger) compuseram oito sonatas para piano baseadas em processos composicionais largamente desenvolvidos em décadas anteriores e imbuídas de um forte viés nacionalista. Estas obras contradizem práticas composicionais previamente adotadas por esses compositores, representantes do que havia de mais progressivo enquanto integrantes do Grupo Música Viva. Assinalando uma mudança estilística deliberada, as sonatas se apropriam de gestos conotativos/denotativos para narrar uma epopeia brasileira. A necessidade de uma performance historicamente informada e a concepção de uma retórica interpretativa dirigida à comunicabilidade ideológica das obras é o assunto elaborado por Cristina Gerling neste ensaio.